COHN, Norman. The pursuit of the millennium: revolutionary millenarians and mystical anarchists of the Middle Ages. Nachdr. ed. New York: Oxford University Press, 2010
Jean-Jacques Anstett, Theologia Germanica
Embora os begardos suspeitos de heresia tenham declarado em Estrasburgo, em 1317, pertencer à seita do Livre Espírito, não se pode falar de uma seita do Livre Espírito, por mais frouxa que pudesse ser sua contextura, assim como não se pode fazê-lo para os adeptos do Novo Espírito que precedem os do Livre Espírito no mesmo caminho & que são conhecidos por 97 proposições que Albertus Magnus relata, segundo suas declarações, em sua Determinatio... super articulis inventae heresis in Recia dyocesis Augustensis (1270). Se os fervorosos do Livre Espírito eram irmãos & irmãs, é porque eram animados pela inspiração comum que lhes ditava a leitura de certos versículos dos Evangelhos ou das Epístolas; não afirmava são Paulo: “Ora, o Senhor é o espírito, & onde há o espírito do Senhor, ali há liberdade” (2 Cor. 3, 17) & “Se sois conduzidos pelo espírito, não estais debaixo da lei” (Gal. 5, 18)? Eles não eram doutos inclinados à especulação, mas não negligenciavam tirar proveito & apoio de asserções lidas ou ouvidas sem se perguntar mais a fundo se interpretavam exatamente formulações por vezes paradoxais: Eckhart não deixou de sofrer com semelhantes deduções. O que, aliás, contava antes de tudo para os adeptos do Livre Espírito, era a experiência exaltante de ser habitado & agido pelo Espírito na & para a vida perfeita; esta convicção lhes servia de disciplina: eles só tinham que se abandonar sem discernimento aos impulsos sentidos interiormente que eram puros, já que vinham do Espírito & eram recebidos em almas puras (1 João 3, 9; Tito 1, 15), inteiramente aniquiladas, vazias de tudo &, em particular, do pecado; homens bons & perfeitos, eles estavam unidos imediatamente a Deus & não tinham, portanto, o que fazer com a mediação de uma Igreja que não era a do Espírito, mas a da carne & dos clérigos; o que esta Igreja ensinava & comandava era sem valor: era inútil rezar, confessar-se a padres, já que Deus falava diretamente a Si & que se podia falar diretamente a ele & já que, perfeito, não se tem nada a lhe pedir nem nada a se fazer perdoar; a prática dos sacramentos unitivos era supérflua quando já se está unido a Deus, & sua administração não devia ser reservada a padres, leigos perfeitos eram dignos de proceder a ela; não era conveniente tampouco ter um culto para os santos, já que cada um podia ser tão santo, senão mais santo que eles. Mas estes irmãos do Livre Espírito não se situavam apenas fora da Igreja, eles se situavam também fora do cristianismo; eles se acreditavam ser Deus por natureza, &, já deificados, eles não precisavam que Deus se humanizasse &, assim como a Encarnação, a Redenção não tinha sentido & valor para aqueles que, como eles, eram de uma perfeição que os tornava sem pecado & os fazia os iguais do Cristo: “christianitas est fatuitas”, diziam alguns deles. Tudo isso ia evidentemente a par com um comportamento quietista extremo; como nada devia fazer obstáculo às moções interiores de Deus, estes irmãos viviam voluntariamente na ociosidade & na preguiça; eles iam, isolados ou em pequenos grupos, errantes, mendigando o seu pão pelo amor de Deus, segundo a sua fórmula, &, como este quietismo recusava toda lei & toda disciplina exteriores, acontecia que este antinomismo degenerasse em amoralismo, apesar da advertência de são Paulo: “Não façam desta liberdade um pretexto para viver segundo a carne” (Gal. 4, 13). Se a situação no Império & na Igreja levava a pôr a sua esperança em uma conversão, um retorno à simplicidade da perfeição evangélica vivida interiormente & à sua mensagem de pobreza, havia também no que os irmãos do Livre Espírito recomendavam & faziam sementes de desordens sociais & espirituais que eram conhecidas, pelo menos, desde os Vaudois, por exemplo, & se manifestavam até mesmo em fraticelos. Uma Igreja hierarquizada, rica, não indiferente à sua situação & à sua ação temporais, não podia tolerar tal fermentação: em 1311, o concílio de Viena condenou os irmãos do Livre Espírito com as beguinas & os begardos &, em 1369, o imperador Carlos IV publicou um edito que agravou sua repressão & sua perseguição. - Religiosos que permaneceram na obediência não podiam deixar de denunciar os irmãos do Livre Espírito como pseudospirituais, adeptos de uma falsa liberdade. Assim, Tauler que, depois de os ter comparado a “uma ferramenta esperando que seu mestre queira trabalhar, pois lhes parece que, se eles fazem alguma coisa, são um obstáculo às operações de Deus”, acrescenta: “Eles querem ser tão despojados que não querem nem pensar, nem louvar a Deus, nem ter, nem saber alguma coisa, nem viver, nem pedir, nem desejar alguma coisa; pois tudo o que eles podem pedir, eles o têm & eles pensam ser assim pobres em espírito porque estão sem vontade própria; eles abandonaram toda propriedade. Eles querem também ser livres da prática da virtude & eles não querem obedecer a ninguém, nem ao papa, nem ao bispo, nem ao pároco; eles querem ser livres de tudo o que é do domínio da Santa Igreja. Eles dizem publicamente que, enquanto o homem se esforça para virtudes, ele é ainda imperfeito & ele não sabe nada da pobreza em espírito nem da liberdade do espírito... Eles se consideram acima de todos os anjos & de todo mérito humano & eles creem que eles não podem nem crescer em virtude nem cometer pecados. O que a natureza deseja, eles podem, segundo a sua ideia, fazê-lo livremente, sem pecado, porque eles chegaram à inocência suprema & que não lhes é imposto nem mandamento nem lei; eles obedecem ao que sua natureza deseja para que o espírito possa permanecer em uma liberdade sem obstáculo” (cit. Delacroix, p. 123). Ruysbroeck não se cansa de culpar os desvios deste iluminismo & deste angelismo em As Doze beguinas como em As Bodas espirituais, em As sete clausuras como em O espelho da salvação eterna; há, para ele, heresia, pois estes adeptos do Livre Espírito declaram: “Somos Deus por natureza; em nosso ser eterno, éramos sem Deus; pelo esforço do nosso livre-arbítrio, saímos do ser absoluto para aparecer no mundo; Deus não sabe, não quer nada sem nós; criamos com ele o universo. Não cremos em Deus, não o amamos, não o oramos, pois isso seria confessar que ele é outra coisa que nós. Toda diferença pessoal é abolida no seio da Unidade divina. É preciso se libertar de toda lei, não se preocupar nem com conhecimento nem com amor” (Delacroix, loc. cit.). Porque certas destas articulações podem ser aproximadas de passagens de Eckhart, Suso não deixa de mostrar ao Selvagem do Livro da Verdade (cap. VI, Obras, p. 451) todo o erro daqueles que se reivindicam assim de seu mestre sem o compreender em verdade &, em sua Vida (cap. XLVIII, Obras, p. 278), ele se eleva contra “certos insensatos que dizem que é preciso chafurdar por todos os pecados, se se quiser chegar ao perfeito despojamento”. - Na TG, as alusões àqueles que professam tais convicções libertárias são muito frequentes & sua reprovação, por não ser de um tom veemente, não é menos constante & precisa. Mas, como ignoramos a data da redação da TG, pode-se perguntar se ela visa aqueles que se chamavam a si mesmos os irmãos do Livre Espírito ou bem aqueles que, sem serem propriamente ditos dos seus, tinham sido ganhos para suas ideias, ou mesmo aqueles em quem & por quem estas ideias sobreviviam & cresciam depois que as perseguições inquisitoriais puseram fim a este movimento como tal. Se, a partir de cerca de 1450, se fala menos de condenações de irmãos do Livre Espírito em países germânicos, seu movimento pode ter desaparecido em suas expressões ultrajantes, mas ele pode se prosseguir naqueles que entendem ser espíritos livres; mais difuso, ele não é, para a TG, menos nefasto nesta descendência do que era anteriormente; aqui como lá, é - para retomar o título de um escrito de Calvino de 1545 - “a seita phantastica & furiosa dos libertinos que se nomeiam espirituais”.
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